Automedicação e Descarte Inadequado de Medicamentos: Um Ciclo Perigoso para a Saúde e o Meio Ambiente
A automedicação, que consiste no uso de medicamentos sem a orientação de um profissional de saúde, é uma prática comum, mas que pode acarretar sérios riscos à saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o uso inadequado de medicamentos é uma das principais causas de complicações tanto para impactos na saúde quanto em impactos ambientais ,como o agravamento de doenças, efeitos colaterais graves e o aumento da resistência antimicrobiana.
Os efeitos colaterais graves são um dos principais riscos da automedicação, pois muitos remédios podem causar reações adversas, e seu impacto varia de pessoa para pessoa. Anti-inflamatórios, por exemplo, podem levar a problemas gástricos, renais e até cardiovasculares quando usados sem controle. Além disso, a combinação inadequada de medicamentos pode gerar interações perigosas, potencializando efeitos tóxicos. Outro problema é o agravamento de doenças, ao aliviar temporariamente os sintomas sem tratar a causa real do problema, a pessoa pode atrasar o diagnóstico correto e permitir que a doença progrida, tornando o tratamento mais difícil e prolongado. Isso é comum no uso excessivo de analgésicos, que podem esconder sinais de infecções ou outras condições mais graves, atrasando o diagnóstico e dificultando o tratamento de doenças.
A resistência antimicrobiana é outra consequência grave do uso indiscriminado de medicamentos, especialmente dos antibióticos, sendo um um problema global de saúde pública. Quando esses medicamentos são utilizados sem necessidade ou de forma inadequada, eles eliminam apenas as bactérias mais sensíveis, permitindo que as mais resistentes sobrevivam e se multipliquem. Isso torna as infecções futuras mais difíceis de tratar, reduzindo a eficácia dos antibióticos e aumentando o risco de complicações graves.
Além disso, o uso impróprio de medicamentos frequentemente resulta em sobras, que, quando descartadas incorretamente, geram impactos negativos também para o meio ambiente. O descarte incorreto de medicamentos em pias, vasos sanitários ou lixo comum contamina o solo e a água, pois as estações de tratamento não conseguem eliminar completamente essas substâncias. Como resultado, resíduos farmacêuticos podem afetar a fauna, a flora e até comprometer a qualidade da água consumida pela população.
Ciclo da automedicação😬💊🚑:
O ciclo da automedicação é um processo complexo que envolve diversas etapas interligadas, perpetuando os riscos para a saúde individual e o meio ambiente. Podemos descrevê-lo, didaticamente, em quatro fases principais:
- Busca Rápida por Alívio: O ciclo geralmente se inicia com a busca por uma solução rápida e imediata para um sintoma ou desconforto. Ao invés de procurar uma avaliação médica, muitas pessoas recorrem à automedicação, impulsionadas pela conveniência, facilidade de acesso aos medicamentos e, muitas vezes, pela crença em autodiagnósticos baseados em informações da internet ou experiências anteriores, bem como por opiniões de conhecidos que não são profissionais de saúde. Essa busca por soluções rápidas ignora os riscos potenciais de tratamentos inadequados e pode agravar o problema inicial, mascarando possíveis doenças subjacentes e atrasando diagnósticos precisos.
- Uso Inadequado: Sem a devida orientação de um profissional de saúde, a utilização de medicamentos ocorre de maneira inadequada. Isso pode se manifestar em diversas formas, como doses incorretas (acima ou abaixo do recomendado), posologia inadequada (frequência e horários de administração incorretos) ou tempo de uso superior ao recomendado. Esse uso incorreto não apenas mascara os sintomas, dificultando o diagnóstico preciso, como também pode agravar problemas de saúde preexistentes ou desencadear novas condições, como reações alérgicas, interações medicamentosas indesejadas e até mesmo intoxicações. Um exemplo comum é o uso irregular de antibióticos, que pode não tratar a infecção de forma eficaz e, ao mesmo tempo, contribuir para o desenvolvimento de bactérias resistentes, um grave problema de saúde pública.
- Acúmulo de Sobras: O acúmulo de sobras de medicamentos é um problema comum, mesmo quando os medicamentos são utilizados conforme a prescrição médica. Diversos fatores contribuem para esse acúmulo. Primeiramente, as embalagens de medicamentos geralmente contêm quantidades padronizadas que nem sempre correspondem à duração exata do tratamento prescrito, resultando em sobras de comprimidos, cápsulas ou outras formas farmacêuticas após a conclusão do tratamento. Além disso, a melhora dos sintomas antes do término do tratamento prescrito pode ser vista como uma melhora do quadro de saúde do paciente e, erroneamente, levar o paciente a interromper o uso do medicamento, gerando sobras.
É importante enfatizar que a interrupção prematura do tratamento, mesmo com a melhora dos sintomas, pode ser prejudicial e deve ser feita somente sob orientação médica. Outro fator contribuinte é a troca de medicamentos, que ocorre quando o médico opta por alterar a prescrição inicial devido à ineficácia, efeitos colaterais ou indisponibilidade do produto, resultando em sobras do medicamento anterior.
O acúmulo dessas sobras em domicílio traz consigo diversos riscos: o uso inadequado por outras pessoas, como crianças ou familiares, que podem utilizá-los de forma inadequada, levando a intoxicações ou outros problemas de saúde; a automedicação futura, pois a presença de medicamentos que sobraram de uso passado pode incentivar a automedicação em situações futuras, perpetuando o ciclo vicioso; e a perda da eficácia e degradação, pois com o tempo, os medicamentos podem perder sua eficácia devido a fatores como exposição à luz, umidade ou variações de temperatura. Medicamentos vencidos ou armazenados incorretamente podem sofrer alterações químicas que os tornam ineficazes ou até mesmo prejudiciais à saúde. Em todo caso, a sobra desses medicamentos é um dos fatores desencadeadores da quarta fase do ciclo: o descarte incorreto.
- Descarte Incorreto: Os medicamentos vencidos ou resultados de sobras de uso passado muitas vezes são descartados no lixo comum, na pia ou no vaso sanitário. Como muitas substâncias químicas presentes nos medicamentos não se decompõem facilmente, elas acabam contaminando o solo, os rios e os lençóis freáticos, fontes ambientais que fornecem insumos naturais que retornam aos seres humanos e animais e, somado ao fato da ineficácia das estações de tratamento em remover completamente essas substâncias, contribui para a persistência da contaminação no ambiente, afetando a fauna, a flora e a saúde humana a longo prazo. Uma revisão integrativa da literatura sobre descarte de medicamentos e os impactos ambientais publicada na SciELO (2023) destacou que a contaminação de águas subterrâneas por medicamentos pode trazer consequências graves para os ecossistemas e prejudiciais à saúde pública. Assim a presença de medicamentos em águas residuais e de consumo humano pode levar à exposição humana a essas substâncias, com efeitos ainda pouco conhecidos.
Fatores que Levam à Automedicação:
- Dificuldade de acesso aos serviços de saúde (demora ou preço de consultas);
- Repetição de sintomas semelhantes a adoecimentos anteriores;
- Recomendação normalmente de pessoas que não são profissionais na área da saúde;
- Não comercialização de doses fracionadas, levando ao acúmulo de sobras;
- Divulgação de medicamentos pela mídia sem regulamentação adequada;
- Livre comércio de medicamentos em farmácias e outros locais, banalizando seu uso.
Exemplo de um caso:
- Uma mulher sente dores de cabeça frequentes após semanas de estresse. Para aliviar o desconforto, começa a tomar analgésicos sempre que sente dor, aumentando gradualmente a dose na esperança de obter um efeito maior. As dores, no entanto, persistem, e ela continua usando os medicamentos em excesso até começar a sentir dor de estômago.
Para tratar esse novo sintoma, recorre a antiácidos, que apenas mascaram o problema. Com o tempo, experimenta outros medicamentos e acumula sobras, muitos dos quais acabam vencendo sem que ela perceba. Ao organizar seu armário, descarta os medicamentos vencidos no lixo comum e na pia, causando prejuízos tanto ao meio ambiente quanto à própria saúde.
É essencial lembrar que o ciclo de automedicação e descarte inadequado geram um impacto negativo duplo: coloca em risco a saúde de quem consome medicamentos sem orientação e ameaça o equilíbrio ambiental. Romper esse ciclo exige conscientização sobre o uso racional de medicamentos e práticas responsáveis de descarte.
Buscar orientação médica antes de iniciar qualquer tratamento é fundamental para evitar erros na utilização de medicamentos. Além disso, adotar práticas conscientes de descarte ajuda a minimizar os impactos ambientais. Existem pontos de coleta específicos para medicamentos vencidos ou sobras de tratamento, como farmácias e unidades de saúde, que garantem a destinação correta e segura desses
Farmácias e unidades de saúde desempenham um papel essencial nesse processo, oferecendo locais adequados para o descarte e conscientizando a população sobre sua importância. Proteger nossa saúde e o meio ambiente é um esforço conjunto, que começa com pequenas mudanças em nossos hábitos e reflete nosso compromisso em preservar o planeta e garantir a qualidade de vida das pessoas.
Referências:
- https://www.journals.ufrpe.br/index.php/REDEQUIM/article/download/1616/1483/5792
- https://site.cff.org.br/noticia/noticias-do-cff/11/04/2024/quais-os-riscos-relacionados-ao-descarte-incorreto-de-medicamentos-
- https://www.scielo.br/j/rsp/a/yMXnDgvKwzmqB7VcyYLJJcT/
- https://sinitox.icict.fiocruz.br/descarte-de-medicamentos-domiciliares
- https://www.scielo.br/j/csc/a/6wySXdYtDxp3vjcnxM8sWyH/
- https://portal.pucminas.br/noponto/materia.php?codigo=467
- https://www.invivo.fiocruz.br/biodiversidade/residuos-de-medicamentos/
- https://repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/55985/4/2020_liv_rmcavalante.pdf
- https://www.paho.org/pt/topicos/resistencia-antimicrobiana
Autora: Louise Teixeira
Revisores: Julia Peixoto de Albuquerque, Arthur Willkomm Kazniakowski e Luana Ribeiro
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